Brasil já taxava Apple e outros gigantes dos EUA muito antes da guerra tarifária

Muito antes da recente escalada tarifária imposta pelos Estados Unidos contra o Brasil, o governo brasileiro já mantinha uma política de taxação intensa sobre produtos de origem americana. Essa postura não é novidade: desde a década de 1990, o país adota uma estrutura de proteção à indústria nacional que, entre outros efeitos, impõe tarifas elevadas sobre produtos importados — em especial os que concorrem diretamente com bens produzidos internamente ou com potencial de desequilíbrio na balança comercial. A disputa recente, iniciada com o anúncio dos EUA de tarifas extras sobre produtos brasileiros em julho de 2025, apenas expôs uma realidade que já existia há décadas.

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8/6/20252 min read

Os dados mais recentes da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da FGV mostram que o Brasil já aplicava, em média, 11,2% de tarifa nominal sobre importações americanas. Em termos efetivos, com descontos, regimes especiais e benefícios fiscais, esse número gira em torno de 4,7% — ainda assim, mais que o triplo da média tarifária praticada pelos EUA em relação ao Brasil. Essa diferença tem sido um dos principais argumentos utilizados pelo governo americano para justificar as medidas retaliatórias anunciadas em julho.

Entre os produtos historicamente taxados pelo Brasil estão itens dos setores de energia, tecnologia, bebidas, cinema, automóveis e até produtos de luxo. Empresas americanas como Apple, Tesla, Ford, ExxonMobil e Walt Disney enfrentam há anos um mercado brasileiro com barreiras tarifárias, burocráticas e regulatórias.

A Apple é um exemplo emblemático dessa situação. Produtos como iPhones, iPads, MacBooks e acessórios da marca chegam ao consumidor brasileiro com preços até 70% maiores do que nos Estados Unidos. Isso se deve, em grande parte, à carga tributária brasileira sobre eletrônicos importados. Um iPhone, por exemplo, pode sofrer mais de cinco tributos distintos: Imposto de Importação (até 20%), IPI (15%), ICMS (18% a 25%), PIS e Cofins, além de taxas de logística e margens de revenda. Em 2024, mesmo após tentativas de acordos para redução de tarifas, os modelos mais recentes da Apple continuavam com preços superiores a R$ 10 mil nas lojas brasileiras. Isso sem contar a burocracia da homologação pela Anatel, que também retarda o lançamento dos produtos por aqui.

Outro setor atingido é o de bebidas alcoólicas. O Brasil cobra IPI de 19,5% sobre bebidas importadas, como uísques e vinhos americanos, enquanto a cachaça nacional paga 16,25%. Essa diferença cria uma desvantagem competitiva para os produtos estrangeiros. Filmes e programas de TV estrangeiros, em especial os produzidos por estúdios americanos, também são atingidos por tributos específicos. Há cobrança de imposto de renda na fonte (25%) sobre bilheterias, além de restrições legais quanto ao conteúdo estrangeiro exibido em horários nobres da televisão.

No setor automotivo, os carros produzidos por montadoras americanas enfrentam tarifas que podem ultrapassar 35%, principalmente quando não são montados no Brasil. Além disso, as autopeças sofrem com licenças de importação não automáticas, um mecanismo burocrático que dificulta o processo de entrada no país.