Como o Pix entrou na mira dos EUA
Na 15 de julho de 2025, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) iniciou uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras, sob a alçada da Seção 301 da lei americana. Entre os alvos dessa análise está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil, visto pelos EUA como um exemplo de vantagem competitiva estatal que prejudicaria empresas americanas.
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7/22/20253 min read


Apesar de o documento oficial não citar expressamente “Pix”, referiu-se a “serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”, apontando indícios de que o Brasil favoreceria seu sistema próprio em detrimento de soluções estrangeiras — configurando possível “prática comercial injusta”.
Essa resposta agressiva de Trump e seu governo pode estar atrelada a pressões de gigantes como Mastercard, Visa e Meta (detentora do WhatsApp Pay), que passaram por barreiras regulatórias no Brasil. Um exemplo foi a suspensão do WhatsApp Pay em 2020, decisão do Banco Central e do Cade sob justificativas de proteção da concorrência.
Especialistas apontam que a real motivação pode ser a perda de mercado significativo para o Pix, gratuito e com taxas baixíssimas (cerca de 0,22 %), enquanto cartões cobram mais de 1 % por transação.
Paralelamente à investigação, Trump ameaçou impor tarifas de até 50 % sobre produtos brasileiros, com validade a partir de 1 de agosto, numa retaliação que muitos veem como pressão diplomática.
Em uma carta pública dedicada a Jair Bolsonaro, Trump chegou a defender que o “julgamento deve parar imediatamente”, interpretado como tentativa de interferência política nos negócios internos do Brasil.
A resposta do governo do presidente Lula foi imediata e enérgica. Em pronunciamento, Lula afirmou que “ninguém aqui aceita interferência dos EUA”, classificando a ameaça como “chantagem inaceitável” contra a soberania brasileira.
Além disso, adotou a campanha nas redes sociais com a hashtag “PIX é nosso, my friend”, transmitindo uma mensagem humorística, porém firme, de que o Pix é patrimônio nacional e que o Brasil não tolerará intimidações.
No Congresso e entre economistas, o respaldo foi forte — e Lula sinalizou que estudam retaliar com a Lei de Reciprocidade Econômica, elevando tarifas sobre produtos americanos se os EUA seguirem com a ameaça.


Impactos do Pix e não ingerência de Trump
Desde seu lançamento em 16 de novembro de 2020, o Pix já cadastrou mais de 500 milhões de chaves e movimentou bilhões de transações — tornando-se o principal mecanismo de pagamentos digitais no Brasil. Ele conta com cerca de 76% da população e atende até às regiões remotas da Amazônia, promovendo forte inclusão financeira.
Entretanto, não cabe ao presidente americano decidir seu fim: só o Brasil tem autoridade para regular suas instituições financeiras. O USTR não nomeou o Pix explicitamente, e tampouco os EUA têm poder para eliminá-lo, ainda que possam impor medidas retaliatórias, como tarifas — conforme casos semelhantes na Indonésia.
Paulo Borba Casella (USP/BRICS): defende que o Pix é um avanço legítimo da soberania e inclusão, e que os EUA estão usando a investigação como instrumento de pressão.
Aos Fatos e UOL Confere reforçam que Trump não tem autoridade para encerrar o Pix; o processo se baseia em análise de práticas comerciais, não em ordens diretas.
A Febraban enfatiza que o Pix não favorece apenas instituições brasileiras, mas é uma infraestrutura aberta, disponível para bancos e fintechs nacionais e estrangeiras.
Cenários futuros
Negociação diplomática e soluções via OMC
A investigação segue, e o Brasil deve responder nas próximas semanas. Há previsão de processos de disputa na OMC, buscando evitar tarifas bilaterais.Risco de tarifas elevadas
Se avançar, medidas poderiam atingir setores como etanol, propriedade intelectual e tecnologia — além do Pix.Reforço eleitoral de Lula
A resposta firme ao “tarifaço” e ao ataque direto ao Pix tem elevado sua popularidade e consolidado apoio nacional.Fortalecimento do Pix
Caso o Brasil mantenha sua posição, o Pix pode ganhar ainda mais destaque como símbolo de autonomia econômica digital e inclusão.
O caso do Pix no contexto Trump representa um atrito entre:
A soberania tecnológica e econômica brasileira – representada pelo monumento de inclusão que é o Pix.
O interesse geopolítico e econômico americano, pressionando entidades digitais que desafiam seus players globais com modelos públicos, baratos e eficientes.
Seja por meio de retaliações comerciais ou de disputas na OMC, o caso segue aberto e pode definir os rumos das relações econômicas entre Brasil e EUA — ao mesmo tempo em que reforça o Pix como exemplo internacional de inovação pública bem-sucedida.