Trump intensifica negociações internacionais e deixa Brasil à margem das alianças estratégicas

Enquanto Donald Trump acelera as negociações bilaterais com diversos países estratégicos ao redor do mundo, o Brasil parece ter sido deixado deliberadamente de fora das prioridades internacionais do ex-presidente norte-americano. Em meio a um cenário de reaproximação global promovido por Trump, que tenta consolidar alianças antes mesmo de uma eventual vitória nas eleições presidenciais de novembro de 2024, o distanciamento em relação ao Brasil começa a gerar sinais de alerta entre autoridades diplomáticas e especialistas em relações exteriores.

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7/27/20253 min read

Nas últimas semanas, Trump — que vem conduzindo negociações paralelas por meio de representantes e aliados próximos — costurou acordos com a União Europeia, Japão, Filipinas e Indonésia. Esses pactos envolvem desde cortes tarifários até novos compromissos em defesa, comércio agrícola e segurança energética. A estratégia, revelada por reportagens da AP News, Business Insider e Financial Times, sugere uma movimentação agressiva para retomar o controle do comércio global sob a ótica nacionalista e protecionista que marcou seu primeiro mandato.

No entanto, enquanto países asiáticos e europeus se alinham a essa nova arquitetura proposta por Trump, o Brasil não só permanece à margem das conversas, como se vê em meio a uma crescente tensão diplomática com os Estados Unidos. Desde abril de 2025, a relação bilateral deteriorou-se rapidamente após a imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros e o anúncio de sanções pessoais contra políticos e empresários próximos ao governo Lula. Segundo fontes diplomáticas ouvidas pela Reuters, o Itamaraty tentou, em maio, agendar encontros com membros do alto escalão republicano para evitar a escalada da crise, mas não obteve retorno.

Especialistas apontam que Trump tem motivos claros para ignorar o Brasil neste momento. Em primeiro lugar, o caso envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro — alvo de investigações no Brasil e nos Estados Unidos por ataques à democracia — gerou grande desconforto no núcleo trumpista, que vê no tratamento do governo Lula uma ameaça ao populismo de direita que Trump representa. Além disso, a regulação das plataformas digitais promovida pelo governo brasileiro e o fortalecimento do sistema Pix, visto como alternativa aos meios financeiros tradicionais e ao dólar, foram interpretados como ações contrárias aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

A exclusão do Brasil ganha ainda mais destaque quando se observa que Trump tem promovido acordos mesmo com países que tradicionalmente mantinham posturas neutras, como a Indonésia. No caso da União Europeia, um novo pacto tarifário foi celebrado como um “alívio comercial” e recebeu apoio do setor agrícola norte-americano. No Japão e nas Filipinas, os acertos incluem temas de segurança regional frente à ameaça da China. Já os Emirados Árabes e a Arábia Saudita voltaram a entrar no radar republicano em tratativas sobre fornecimento de petróleo e armamentos.

No plano interno, Trump usa essas alianças como vitrine para sua campanha presidencial. Ele promete devolver aos EUA o controle de cadeias produtivas e blindar a economia nacional contra pressões externas. Seu discurso tem forte apelo junto à base eleitoral e contrasta com a abordagem multilateral da administração Biden. Em eventos recentes, Trump reforçou que, em seu próximo mandato, priorizará países “parceiros de verdade”, em referência direta àqueles que oferecem ganhos imediatos e respaldo ideológico.

A ausência do Brasil nesse rol revela um isolamento crescente. O presidente Lula tenta, desde janeiro, estabelecer uma posição equilibrada entre os blocos ocidentais e os Brics, apostando na multipolaridade como estratégia diplomática. Entretanto, ao não se alinhar claramente a Washington ou a Pequim, o Brasil passa a ser percebido como um ator ambíguo, o que dificulta seu acesso a acordos preferenciais. Conforme análise do Foreign Policy, a política externa brasileira atual, ainda que soberana, tem limitado sua influência em um cenário cada vez mais polarizado.

A postura de Trump em relação ao Brasil também repercute na economia. Com as tarifas prestes a entrar em vigor em agosto — podendo chegar a 50% sobre commodities agrícolas —, setores como o agronegócio e a indústria de transformação brasileira alertam para prejuízos bilionários. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) já apresentou ao governo um plano de contingência e defende a busca por novos mercados, mas reconhece que a perda de acesso facilitado ao mercado americano terá efeitos duradouros.

Se Trump retornar oficialmente à presidência, como apontam as pesquisas mais recentes, a tendência é de que a postura de isolamento em relação ao Brasil se intensifique, a menos que haja uma mudança estratégica na diplomacia brasileira. Analistas do The Economist avaliam que a exclusão atual do Brasil das negociações é um sinal claro de que, para Trump, lealdade política e pragmatismo comercial se tornaram os principais critérios para qualquer parceria internacional. E, neste momento, o Brasil, ao que tudo indica, não atende plenamente a nenhum dos dois.